fim de uma era

Catalogado sob:

a indústria aeroespacial do país perde um de seus pioneiros



Artigo de
Roberto Lopes publicado na sessão ANTENA, da Revista Welcome Congonhas (revista do Aeroporto Iternacional de Congonhas), de fevereiro 2008

 

.......................................................................

 

O trágico desaparecimento, no mês passado, do engenheiro João Verdi Leite, fundador e principal dirigente da Avibrás Aeroespacial, de São José dos Campos (SP), enfraquece de maneira expressiva o grupo dos industriais brasileiros ligados aos sensíveis segmentos da aeronáutica e do material bélico. O baque é preocupante - afinal, foram esses empresários que, a partir do final dos anos 60, demonstraram à sociedade brasileira, de forma inequívoca, que apostar no desenvolvimento científico-tecnológico do País, mesmo em setores (de produção e comércio) arriscados, não era nem um delírio, nem uma inconseqüência.

Verdi amava os aviões - "Voar é bonito", ele dizia - mas construiu a reputação de sua empresa com os foguetes militares, um nicho de mercado em que, até ele surgir, a tradição brasileira era quase igual a zero. Apesar disso, o mineiro Verdi vendeu muito - mas no exterior e não no Brasil. E reclamava por causa disso. Vivia inconformado com o fato de os governantes brasileiros se omitirem no papel de representantes de sua indústria mais sensível, e de as instituições de financiamento do País apostarem não mais do que um átimo em seu ramo de negócios. Ultimamente não escondia sua insatisfação com a falta de apoio às pesquisas no setor aeroespacial e bélico.

Suas reclamações não divergiam, básicamente, da visão do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o tema. Lula aprendeu a admirar a técnica refinada dos franceses nesse mêtier. Aprendeu isso com seu amigo Jacques Chirac e talvez por essa razão o Brasil esteja prestes a fechar com a indústria da França um pacote de equipamentos para o reaparelhamento de suas Forças Armadas.

Verdi, evidentemente, não acertou em tudo - ninguém acerta, claro. Ele sempre repeliu a associação com empresas e capitais estrangeiros. Recebeu sondagens do Japão, da Suécia, do Chile, para citar apenas alguns dos países que o procuraram. Nunca quis arriscar esse tipo de parceria. Foi um erro. Há mais de 15 anos que a Avibras enfrenta dificuldades financeiras ( e tecnológicas) importantes. A Embraer, por exemplo, tem várias associações com entidades, empresas e capitais do exterior. E só faz crescer.

É possível que o grupo de pioneiros da indústria aeroespacial brasileira tenha experimentado certa dificuldade ao avaliar as conseqüências, para a economia mundial, da queda do Muro de Berlim e do fenômeno da globalização - um ponto de inflexão (ou uma "esquina da História", como preferem alguns historiadores) que marcou o curso da humanidade do mesmo modo que a Revolução Industrial. Verdi talvez seja o melhor exemplo disso. Contudo, é de se lamentar que a notícia do acidente que vitimou o dono da Avibras não haja recebido o destaque que merecia.

 

Ações do documento