tudo ficou no lugar
nada mudou. apenas os nazistas atravessaram o atlântico norte e, hoje, falam inglês.
Jornal do Brasil, (29 de agosto de 2008)
COISAS
DA POLÍTICA
mauro santayana
Os cavalos de Tróia e os cossacos do Cáucaso
O Primeiro Ministro Putin denunciou o que muitos haviam percebido. Bush açulou o governo da Geórgia, a fim de invadir a Ossétia do Sul e favorecer a candidatura republicana à Casa Branca. Contava com a reação russa e o temor da opinião americana de que Obama não tivesse pulso em situação de perigo, uma vez que Mc Cain vinha apontando a inexperiência do adversário nas relações internacionais. Em resposta, os democratas buscaram Joseph Biden para vice de Obama, que, com sua experiência e credibilidade em assuntos externos, ameniza o temor da ala conservadora de seu partido e dos eleitores independentes.
Homem procedente dos serviços de informação, Putin conhece a anatomia das operações sujas. O estudo de todas as guerras e todos os golpes de Estado, desde Tróia, mostra que tais expedientes, não obstante o repetido uso, continuam surtindo efeito. Os nazistas sempre os empregaram. Entre outras provocações houve o incêndio do Reichstag, que atribuíram falsamente ao comunista búlgaro Dimitrov, a fim de fortalecer a posição de Hitler no poder, a demonização dos judeus até a “solução final”;o estímulo às desordens dos nazistas na região tcheca dos Sudetos, e os incidentes de Dantzig, que foram pretexto para a invasão da Polônia. Na história da América Latina é possível encontrar a marca dos dedos dos agentes provocadores norte-americanos em quase todos os golpes de Estado. Isso ocorreu no Chile, no Uruguai, no Brasil, na Guatemala, na Nicarágua e em El Salvador.
Como já é de hábito, Washington respondeu com desdém à afirmação do premiê russo, ao qualificar de irracionais as suspeitas do adversário. As suspeitas estão dentro da rigorosa lógica da História. Tampouco são bizarras as advertências de Moscou a Varsóvia, a propósito de mísseis americanos em seu território, como as adjetivou a senhora Rice. Na escalada do novo confronto, os russos anunciaram, ontem mesmo, o êxito do teste de seu novo míssil intercontinental Tópol, portador de múltiplas ogivas nucleares, com o alcance de 10 mil quilômetros, e – segundo afirmam – capaz de atravessar qualquer escudo nuclear. Se esse for o desempenho da arma, ela poderá atingir, a partir dos silos soviéticos, alvos em quase todo o território dos Estados Unidos.
Depois da queda do muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, os Estados Unidos passaram a atuar como se a sua hegemonia estivesse adquirida para sempre. Com essa arrogância entraram no século 21, que seria, segundo alguns estrategistas republicanos, novo século americano. Menos de uma década após essa passagem triunfal pelo pórtico do milênio, o país sofre outra realidade, com o governo dissociado dos ideais democráticos da república, os custos bélicos financiados com a crescente desigualdade interna, a transferência de recursos públicos aos empreiteiros da guerra e da “reconstrução” no Iraque – associados aos republicanos – as instituições claudicantes, o desrespeito às liberdades, o descrédito do mundo.
Os mais lúcidos pensadores norte-americanos têm advertido que o ciclo imperial de poder de seu país está chegando ao fim. Não obstante, talvez devido ao medo que suas armas infundem, Washington continua dando ordens ao mundo. Seu equivoco é pensar que o patriotismo seja atributo exclusivo deles. Os russos, mesmo com o desastre que foi a desorganização do Estado, demonstram, na recuperação econômica, na política e militar, na retomada da grande indústria bélica, que os sentimentos nacionalistas, mobilizados com êxito na Segunda Guerra Mundial, continuam poderosos.
Não devem os norte-americanos surpreender-se com a rápida resposta militar dos russos e suas advertências aos vizinhos hostis. Como se sabe, imitar os atos do inimigo, para combatê-lo, é velho hábito dos homens.


OBRIGATÓRIO
Beijos em todos.