ubaldo não era paranóico
e o "alegro desbun", como fica?
Quando se dizia que a CIA botava um terno em pobres criaturas suburbanas e as doutrinava para levarem a Bíblia às praças e ruas, financiando o surgimento de novas seitas evangélicas (Universal do Queijo do Reino?), para combater a teoria da libertação da Igreja Católica dos anos 60, a direita dizia que isso era uma teoria conspiratória e paranóica da esquerda. E se defendia da acusação dando o trôco sobre Jorge Amado, a quem acusava de só ser lido no mundo inteiro porque o Partido Comunista financiava a publicação de seus romances. Quando os movimentos de luta contra a ditadura militar boicotavam alguns eventos culturais, acusando-os de "pura alienação" e de terem sido patrocinados para desviar a atenção do combate à ditadura, também se dizia que não passava de paranóia da esquerda.
O livro "Quem pagou a conta?", da escritora inglesa Frances Stonor Saunders, recém traduzido para o português, analisa os diversos eventos e manifestações culturais financiados pelos Estados Unidos da América, por intermédio de suas agências (embaixadas, CIA, etc), durante os anos de guerra fria. Embora trabalhe essencialmente focada na Europa e nos Estados Unidos da América a escritora aborda episódios em outras partes do mundo, inclusive, no Brasil quando cita o caso do poeta americano Robert Lowell que passou três meses por aqui durante o governo João Goulart.
A análise de JASÓN TÉRCIO a respeito do livro lembra que "É público e notório que a CIA (Central Intelligence Agency) contribuiu decisivamente para sabotar e derrubar governos eleitos democraticamente, inclusive no Brasil, planejou e executou atentados terroristas (assassinatos de líderes políticos), espionou milhares de pessoas, entre as quais artistas e escritores sem nenhuma atividade político-partidária, como Ernest Hemingway e John Lennon.
A autora de Quem pagou a conta? aborda apenas em poucas linhas a guerra cultural da CIA em outros países, sem citar o Brasil, exceto no caso de Robert Lowell. Mas durante o governo Jango existiram duas organizações que faziam parte do esquema: o Institutos de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). Ambos receberam verba da CIA e atuaram em diversos setores culturais, patrocinando edição de livros, publicação de revistas, programas de rádio e TV, documentários, jornais, tudo como parte da conspiração que desembocou no golpe militar de 1964. Vários intelectuais e escritores brasileiros participaram. Uma boa história que ainda falta ser contada."
Eu completo o comentário de JASON TÉRCIO: - Uma boa história - que nestes tempos de indenizações maravilhosas a dissidentes culturais da ditadura - ainda pode ser contada.

