espetáculo democrático
É difícil acreditar que um país vive sob uma ditadura quando ele conserva - sob tutela - mecanismos e instituições formais da democracia.
Em princípio democracias não torturam pessoas, muito menos com autorização judicial. Mas a Suprema (suprema em que?) Corte dos Estados Unidos da América autorizou a tortura em prisioneiros. É contraditório e paradoxal uma "corte de justiça" autorizar aberrações que só a barbárie produziu e praticou. A base e o fundamento de uma decisão como essa da Suprema Corte dos Estados Unidos da América não encontra fundamento sequer no estado de natureza posto que o sofrimento infligido por um animal a outro não tem esse significado.
Democracia não invade outro país nem destrói outros povos. Quem faz isso, quem se impõe pela força, são os Estados tirânicos, mesmo quando disfarçados em "democracias". É preciso considerar que outros elementos e outros comportamentos também são significativos e definidores do que é uma democracia. E não, apenas, os elementos e instrumentos de participação eleitoral.
O respeito às minorias é condição fundamental para a compreensão do que é democrático e não democrático. E desde quando os Estados Unidos da América respeitam minorias fora de suas fronteiras? O avanço militar dos Estados Unidos da América tem sido, em grande parte, para impor sua maneira de viver, padronizando hábitos e destruindo costumes. Diferenças políticas, nem se fala, são eliminadas fisicamente.
Essas e outras reflexões me vêm a respeito da tristeza que me causa perceber a dominação cultural, o engôdo e o engano a que são submetidas muitas das pessoas das minhas relações. Muitas pessoas com quem convivo têm em conta os Estados Unidos da América como uma democracia. E acreditam nisso. Há quem julgue aquele país como um exemplo de democracia. Alguns referem-se aos Estados Unidos da América como uma grande democracia. É triste.
O escritor Mário Vargas Lhosa esteve no Brasil há pouco tempo e concedeu uma entrevista na qual alertava para os cuidados que devem ser tomados com uma sub-literatura que, digo eu, é disseminada pelas grandes editoras ligadas aos Estados Unidos da América. São diversos lançamentos vinculados a um esquema de "merchandasing" que vai desde a transformação da "obra literária" em roteiro cinematográfico à venda de botões, camisetas e outros produtos. Realmente tenho visto nas bancas de jornais, livrarias, e numas lojas que deram de se chamar de "revistarias", publicações com histórias que vão desde o resgate de um menino que vai soltar pipas num parque de São Francisco da Califórnia, onde as pipas voam com mais liberdade que em seu país de origem, à história de um cãozinho que é salvo da vida que levava no Iraque. Parece que as coisas chegaram ao limite do ridículo, mas não chegaram. E é esse o perigo. É quando perdemos o senso de ridículo e passamos a nos comover com a história da pobre criança salva de seu próprio país.
O apetite da indústria de entretenimentos faz com que a produção para os meios de comunicação de massa se alimente de bens da cultura para preparar material para consumo fácil. A voracidade do metabolismo dessa indústria traz consigo o perigo de destruição desses bens, que poderão ter sua natureza afetada por condensações, resumos ou adaptações. O resultado, segundo a escritora alemã Hanna Arendt, é o surgimento de
"um tipo especial de intelectuais, amiúde lidos e informados, cuja função exclusiva é organizar, disseminar e modificar objetos culturais com o fim de persuadir as massas de que o Hamlet pode ser tão bom entretenimento como My Fair Lady e, talvez igualmente educativo. [...] Muitos autores do passado sobreviveram a séculos de olvido e desconsideração, mas é duvidoso que sejam capazes de sobreviver a uma versão para entretenimento do que eles têm a dizer".
Há quem admire e até quem defenda o papel redentor dos Estados Unidos da América para "salvar" as pessoas (e os animais. Lembrem-se do cãozinho) dos demônios que habitam dentro delas. O Porta-Voz da Editora Abril, Diego Manardi, declarou na última edição da revista VEJA E LEIA que se tivesse filhas púberes as entregaria para desfrute de soldados americanos se esses invadissem nossas terras. A dominação cultural chega a esse ponto. Vai muito além do deslumbramento daquele porta-voz com a participação num programa de televisão gerado diretamente de Nova Iorque.
Os Estados Unidos da América venceram a guerra contra os nazistas alemães, não se deve esquecer, mas viraram nazistas de carteirinha. Tomaram toda a produção de conhecimentos da Alemanha. Desde o projeto nuclear à área da comunicação de massas. Não é à toa que Hollywood hoje, seguindo as lições iniciais, faz melhor do que Joseph Goebbels na área de propaganda e de imposição de hábitos. Os filmes holliwoodianos são um verdadeiro massacre à inteligência. Nós, latinos, assistimos aos filmes de cáubói acreditando piamente que somos os mocinhos. É com eles é que nos identificamos. Só quando visitamos a América do Norte e somos obrigados a tirar os sapatos e beijar o solo, ou quando eles nos invadem, como na Colômbia, é que percebemos que na realidade nós somos os índios da fita. E eles sabem disso. É que essa indústria de produção em massa tem aquela infinita capacidade de disseminar sua verdade modificando objetos culturais. É por isso que passamos a entender como democracia, como processo democrático e como modelo de convivência democrática, tudo o que se faz, e a maneira como é feito, nos Estados Unidos da América.
Além da Alemanha nazista sòmente os Estados Unidos da América disseminaram e impuseram tanto, ao seu próprio povo, os simbolos criados para emular o espírito guerreiro, de defesa do território etc. Eles ainda não usam a cruz suástica, mas usam a águia (os nazistas alemães também tinham uma ) e a bandeira de maneira ostensiva na exaltação de seus símbolos. A imposição da bandeira listrada chega às raias do fascismo. Aliás, o falecido escritor Norman Mailer dizia que
"outra parte do emburrecimento ianque são nossas excessivas demonstrações de patriotismo. Os países fascistas sempre demonstram grande orgulho de sua bandeira. A mim, as bandeiras me deixam nervoso".
No momento atual o encantamento é com as "prévias" realizadas pelos partidos políticos para a escolha de seus candidatos à eleição presidencial do próximo semestre. Nossos politicos e nossos intelectuais não falam sequer em adaptar aquele processo à nossa realidade. Falam em copiar mesmo. Bastaria que imitássemos os Estados Unidos da América e nossa democracia seria completa. Seríamos iguais aos mocinhos da fita. O grande esquecimento dos nossos politicois e intelectuais encantados é o de que nós não podemos votar nessas prévias. Nem na eleição definitiva. Como diz Élio Gaspari, são coisas só para o andar de cima.
Esse engano de achar que os Estados Unidos da América representam uma democracia é triste. Repetimos que os Estados Unidos da América são uma democracia, porque eles assim nos dizem e nós acreditamos. E se não acreditarmos, eles nos mostrarão como fazê-la. O Iraque está ahí para nos servir de exemplo de como devemos agir. Devemos perguntar a nós mesmos se os Estados Unidos da América são uma democracia. Perguntar aos palestinos, ao povo da Arábia Saudita e tantos outros povos que vivem sob a democracia americana o que é democracia. Cito mais uma vez Norman Mailer, falando sobre seu povo, para encerrar essa longa digressão:
"Nós, que somos uma democracia tão grandiosa, já demonstramos que temos pouca compreensão real do que é democracia em sí. Parece que não compreendemos que ela tem de ser construida de baixo para cima, a partir da vontade interna mais profunda das pessoas que vivem no país. Nenhuma potência externa pode oferecer a democracia como um presente"


Espetáculo Democrático
Certamente voce já deve ter ouvido essa, mas aí vai sem medo de errar:
A verdade e justiça praticada pelos poderes (quaisquer deles) sempre foi e continuará sendo circunstancial, até que um "louco" consiga fazer o povo acordar desse transe.
Grande abraço e parabéns.
Sérgio Motta