última vitória de fidel sobre os EUA
Ao anunciar sua retirada da vida pública, em plena campanha eleitoral dos EUA, ditador põe embargo no centro do debate
césar fonseca - para o semanário JORNAL DA COMUNIDADE, de Brasília
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Fídel Castro, que, sob o socialismo, livrou o povo de Cuba da miséria, do analfabetismo e dotou-o de saúde e educação privilegiadas, embora tenha lhe negado, debaixo do regime fechado de partido único, a liberdade politico-democrática-parlamentar-burguesa, saiu de cena impondo derrota política a Tio Sam, seu maior adversário histórico.
Em pleno auge da campanha das primarias eleitorais nos Estados Unidos, onde a dupla democrata mulher-negro (Hillary Clinton-BaraK Obama) ou negro-mulher (Obama-Hillary) enfrentará o candidato apoiado por W. Bush, politicamente desmoralizado pelo imperialismo praticado contra o Iraque, o ex-comandante em chefe de Cuba coloca, com sua retirada, a pauta cubana - o fim do bloqueio comercial contra os cubanos - na campanha eleitoral norte-americana.
Como o eleitorado hispano-americano desequilibra a eleição dos Estados Unidos, compondo quase 20% dos votantes, no país, e sendo totalmente engajado no cenário politico, como afirmação de sua sobrevivência econômica, política e social da América - apesar, ou por causa, dos preconceitos anti-hispânicos por parte da população branca -, o assunto bloqueio continental americano sobre a ilha volta a ser, no processo sucessório cubano, tema de discussão nacional no processo americano.
Na prática, não é o investidor que descarta Cuba como bom investimento, daí fugir do país, mas o bloqueio comercial, que prohibe empresas que comercializam com os Estados Unidos de aplicarem em negócios em terras cubanas, onde oportunidades de ganhar dinheiro existem.
Findo o bloqueio, as empresas atenderão ao chamado do governo cubano, como atenderam ao do governo da China, que se transformou em misto de capitalismo-socialismo. Estaria, portanto, aberta a porta da modernização da economia, não por conta do fim do socialismo cubano, por força do rompimento do bloqueio comercial americano. Talvez até os anticastristas de Miami irão explorar as oportunidades, se Cuba, pós-Fidel, der uma de China.
Poderá tal debate fortalecer Barak Obama frente a Hillary Clinton, ou ajudar a senadora, que tem nos hispano-americanos forte apoio? Ou pender a balança para os democratas contra os republicanos, fragilizados pelo desprestígio nacional e internacional de W. Bush?
O fato é que a jogada política de Fidel já provocou o Congresso dos Estados Unidos. O democrata Howard Berman, da califórnia, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos representantes, convocou na quinta (21), o governo W. Bush para rediscutir o embargo comercial, financeiro e econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba.
Para Berman, a renuncia de Fidel é excelente oportunidade para os Estados Unidos injetarem criatividade e novas idéias nas relações com o país vizinho. Entre os chamados a testemunhar estará o secretário de comércio dos EUA, Carlos Gutiérrez, único cubano-americano do gabinete de Bush e defensor do embargo, Thomas Shannon, número 1 para América latina do departamento de Estado, e Caleb Macarry, chefe da Comissão de Assistência para uma Cuba livre, criada em 2003, com orçamento de 80 milhões de dólares.
Fidel rompeu o silêncio sobre o assunto na campanha eleitoral, para envolver a sociedade americana. Tal discussão, como denotam as reações políticas desencadeadas pela estratégia de verdadeiro estadista, posta em prática por Castro, igualmente, mobiliza, segundo o cineasta e analista político Armando Lacerda, o cenário político internacional. Não apenas nos Estados Unidos o líder ideológico cubano foi notícia, mas também, em toda a Europa, Ásia, áfrica e oceania.
Todos passaram a dar palpites sobre o futuro de Cuba, posicionando-se, favoravelmente, à rediscussão e superação do bloqueio comercial imposto pelos governos americanos contra o governo socialista cubano, desde 1962, ancorado na fatídica e colonialista lei Helms-Burton, que sustenta o embargo comercial imperialista. Tal lei, na prática, tornou-se um contra-senso no cenário globalizado por representar a negação da própria globalização.


Cuba 2008