Revista Fácil, junho/julho 2006
Revista Fácil – Junho/Julho de 2006
Ano XI – Edição 81
José Campello Neto
Diretamente de Brasília
Carta ao amigo
Meu caro Fernando,
Acordei no meio da noite. Que horas são, não sei. Sei que não tenho insônia. Não me importo de ficar acordado. Simplesmente quando acordo arranjo alguma coisa para fazer. Vou ler, comer, afinal a noite tem a mesma duração do dia, e, para o estômago, o que conta é só o tempo, esteja claro ou esteja escuro. Além disso, nos tempos de hoje a televisão não pára. E ainda tem o rádio, se for o caso. Antigamente, a televisão encerrava os “nossos” trabalhos por volta da meia-noite. Era quando vinha a propaganda do Cobertor Parahyba: - Tá na hora de dormir, não precisa a mamãe mandar.... Mas eu acordei preocupado. Não sei o que deu em mim porque não conseguia lembrar onde foi que durante o dia tinha visto uma cena em que uma senhora inglesa ao tomar conhecimento de que tinha uma neta adolescente dizia que sendo britânica não fora treinada para demonstrar carinho a seres humanos, mas somente a cães e a gatos. Esse negócio martelando na minha cabeça estava me incomodando. Será que isso, afinal, é a tal da insônia? Comecei a ficar muito preocupado porque não conseguia reconstruir meus passos durante o dia anterior. Nossa! Como é angustiante! Pensei em Alzheimer, caduquice e outros perigos da velhice. Pensei logo em fazer palavras cruzadas porque dizem que é bom para a memória de velho. Mas aos poucos fui recuperando. Aquela cena da inglesa eu não tinha visto naquele dia. Tinha sido num filme, desses que passam na “sessão da tarde”, talvez no fim de semana anterior, quando me dedico à pipoca, sem sal e ao refrigerante light. Era a história de um lorde inglês que descobre uma filha, fruto de uma aventura num país qualquer daqueles que os ingleses, antes dos americanos, baixavam o cacete. Pelo visto não só baixavam. A mente da gente é que é mesmo surpreendente. Eu estava era involuntariamente fazendo uma associação de idéias. Devagar e com muito esforço lembrei que o filme de hoje à tarde tinha sido outro. E na verdade eu não parei para assistir. Só passei na frente da televisão por uns minutos. Já o tinha visto. O pessoal aqui de casa é que tinha alugado o DVD. E o filme era Poderosa Afrodite, de Woody Allen. Nesse filme o personagem Woody Allen – que sempre faz o papel de Woody Allen, assim como o nosso Tarcísio Meira sempre faz o papel de Tarcísio Meira, e ninguém faz melhor do que ele, em qualquer que seja o filme ou a cena – adota uma criança de pais vivos. Ou seja, Woody Allen vai a um lugar em Nova York onde as pessoas se reconhecem com mais poder econômico que outras e “adotam” os filhos daqueles. Não conheço todos os aspectos da questão que estou abordando e sei que se trata de um tema polêmico. E sei também que o que vou dizer pode ferir muita gente, mas desconheço outra atitude mais arrogante que se possa esboçar diante de uma pessoa do que julgar-se no direito de apartar a cria da própria mãe pelo fato de estar em melhores condições econômicas ou sociais. Nenhum argumento me convence. Trata-se de um ato de soberba e de egoísmo. Essa necessidade individual de dar amor a uma criança pode ser direcionada às milhares de crianças órfãs, por que não? Por que subtrair o direito de uma mãe pobre de criar seu filho? Se esse tipo de “adoção” é para melhorar a vida da criança por que não ajudar a mãe a criá-lo, por que não presentear a criança com a sua própria mãe? Quem tira o filho dos outros geralmente tem dinheiro suficiente para ajudar famílias carentes. Tudo isso continuava martelando na minha cabeça. E eu não tinha percebido o quanto esse tema me incomodava. Talvez por isso na minha mente tenha associado a cena do filme. Bem melhor do que “comprar” ou raptar o filho alheio para criar, mesmo com mimos e atenções, como fez a goiana Wilma com o Pedrinho, aqui de Brasília, é dar carinho a cães e gatos, como a senhora inglesa. Ou adotar quem precisa, quem não tem pais nem família de quem receber educação, carinho e, principalmente, amor.

