Revista Fácil, junho 2005

por José Campello Neto última modificação 12/07/2008 21:36

Revista Fácil – Ano X – Edição 06

Junho - 2005

Carta ao Amigo

José Campello Neto

Diretamente de Brasília

jcampello_neto@hotmail.com

Meu amigo

Esta é a segunda carta que lhe escrevo hoje. A primeira se perdeu. Perdeu-se no emaranhado de circuitos elétricos, ou eletrônicos, sei lá, deste computador. Apertei numa tecla errada. Mantenho uma relação conflituosa com essa máquina. Por mais que ela nos facilite a vida, nos impõe limitações e dificuldades chatíssimas. Somos obrigados a seguir um roteiro, um manual de instruções, uma seqüência de procedimentos, senão botamos tudo a perder. Além do que, minha paranóia garante que tudo o que datilografamos nesses equipamentos fica guardado numa memória à disposição da CIA. A garotada que usa computador já se utiliza da famosa NOVILÍNGUA determinada pelo Big Brother de 1984, que a gente sabe que mora lá no Pentágono. Os garotos dizem Kd ao invés de cadê. Vc ao invés de você, qnt ao invés de quanto, e outras tantas palavras apocopadas, além de expressões que não reproduzo aqui porque eu mesmo não sei o que querem dizer. E para completar a predição de George Owell já começam a modificar o sentido original das palavras: digitar, que significa dar a forma de dedos, virou sinônimo de dactilografar. É mole? Acho que perdemos essa batalha. Eu é que insisto em não entregar os pontos. Noutra frente contra a minha maneira de me comunicar está o uso do idioma ânglico. Nem as empresas que atuam no Brasil respeitam mais a Last Flower of Lácio. O jornalistas Anselmo Góis denunciou em sua coluna que das sete opções de mensagens oferecidas pela International Business Machines na central de atendimento a clientes brasileiros, somente duas mensagens são em português.

Esse meu desabafo é uma complementação do outro, do que se perdeu nos escaninhos da memória do computador ou foi bater em Washington onde está sendo analisado para ver se não tenho nenhuma ligação com Bin Laden. Ozama nas alturas! Naquela carta eu lhe dizia que apesar de nunca ter lido um livro de João Ubaldo Ribeiro, eu não vou com a cara dele. Não gosto daquele sorriso (de largato) inteligente, com ares de quem já leu tudo o que havia na biblioteca de Alexandria. E a antipatia se completa quando o ouço falar. Também não gosto daquele jeitão de quem conversa nos limites do seu interlocutor, e ainda com voz de quem não se curou de um porre. Êle parece um Buda ditoso. Puxa vida, “botei pra quebrar”. Vai ver até que o cara não é nada disso, nem chato nem arrogante e eu é que tenho complexo de inferioridade diante de qualquer um, e de qualquer uma, que use o fardão da Academia. É isso. Pode ter certeza. Eu me sinto inferiorizado quando ouço um escritor falando, ou escrevendo o que não sejam seus próprios livros. Artigos para jornal, por exemplo.

João Ubaldo em dois ou três artigos publicados no jornal O GLOBO arrasou com uma das melhores iniciativas do governo Lula: a cartilha do politicamente correto. Nada melhor para quem como eu conta piada em mesa de bar para saber o que devo e o que não devo pronunciar. Aquela cartilha seria minha salvação. E o pior é que por causa dos artigos de João Ubaldo não restou sequer um exemplar aqui em Brasília. Já rodei por todos os Ministérios e não encontrei nem notícias dela. Mais uma antevisão de George Owell: - Apagaram a história. A cartilha não existe mais. Ou melhor, jamais existiu.Tudo isso porque Lula não quis atender a sugestão de Chico Buarque para ele criar o Ministério do “Vai da Merda”. Se tivesse escutado Chico ele poderia ter evitado a cartilha. Quem sabe teria partido para um catecismo, ou para outras medidas mais concretas e efetivas contra a discriminação. Mas eu tenho também minha sugestão. Se a cartilha oficial do governo foi bombardeada pelo escritor bahiano porque não transformá-la no Manual de Redação do PT. O Partido pode adotá-la oficialmente. Afinal, todo mundo tem seu Manual de Redação. Garanto que até a nossa revista FÁCIL tem suas regras estabelecidas. No Jornal do Comércio do Dr. Pessoa ninguém podia escrever o nome dele completo. Tinha que ser F. Pessoa de Queirós. Só o efe.

Quero deixar claro que eu compreendo, ou melhor, como dizem os militares, alcancei a boa intenção do governo que é lutar contra a discriminação das minorias, sejam elas minorias étnicas, raciais, sociais, sexuais e políticas. Nessa linha ( adoro essa expressão) foi estabelecido também o sistema de cotas para promover o acesso igualitário ãs Universidades Públicas. A implantação dessas idéias é que foi e está sendo atabalhoada. Podemos dizer até, desastrada. Mas nada disso era motivo para voltar atrás só por causa de dois ou três artigos escritos por um elemento dessa minoria que se torna panelinha quando acede à Academia Brasileira e vira colega de Roberto Marinho, Ivo Pitanguí e de generais com pseudônimos femininos. O Governo cedeu. Têve mêdo da gozação e caiu na própria armadilha que criou. Ou você acha que o espírito brasileiro ia deixar barato não se poder mais fazer gozação com argentinos, gaúchos, cearenses, qualiras, baitôlas, caipiras e tantos outros?

É Fernando, hoje eu estou escrevendo zangado. Em meio a “mensalões”, “Correios-Gate”, Reforma Política, Reforma Ministerial, queda de governo, golpe de Estado e Referendo contra – ou a favor – das armas escolhí atacar o que há de frescura nessa história de ser politicamente correto e lembrar que podia haver algo de sério nas iniciativas do governo, que foi abortada pelo oráculo João Ubaldo. E tudo isso começou porque eu fui perguntar se vai ter cota para macho no próximo concurso do Itamaraty, para diplomatas. Se eu tivesse lido a cartilha não teria feito essa pergunta nem escutado os gritinhos irados a que fui obrigado.

Hoje seu amigo vai assinar a carta com outro nome.

Receba um abraço do Sargento Getúlio.

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José Campello Neto
Brasília - DF
Jornalista e advogado