Revista Fácil, fevereiro 2005
Fevereiro 2005
Carta ao Amigo
José Campello Neto
jcampello_neto@hotmail.com
Meu Caríssimo amigo,
Desta vez você vai ter que bulir no meu texto. Pelo menos na grafia de algumas palavras. É que eu estou lhe escrevendo de Tokyo. Imagine, um pau-de-arara no Japão! E os computadores daqui não possuem todas as nossas letras. Além disso tem umas teclas que se a gente bater nelas o computador começa a escrever na grafia deles, num daqueles ideogramas. São três tipos de ideogramas, e cada um mais complicado do que o outro. Você já pensou se a gente tivesse que aprender a ler em três alfabetos diferentes? Ia ser uma loucura para qualquer Paula Freire alfabetizar nossa população.
Algo que me deixou bastante impressionado foi a contradição entre a realidade e aquilo que eu imaginava do Japão. Pensei que ia ver um computador em cada esquina. Ao contrário. É a a maior dificuldade para encontrar uma máquina dessas. Talvez todo mundo tenha a sua, porém equipamento para uso público não existe.
No Brasil, qualquer sala de espera em hotel três estrela tem um computador. No Japão, quem diria, a gente tem que procurar.
Isso aqui é uma grande São Paulo. É tudo muito cinza e tem gente demais. Mas é tudo limpo. È difícil encontrar um papel amassado jogado na rua.
Tomamos o trem-bala, o chamado Shinkansen, para Hiroshima. Depois fomos a Kyoto e agora voltamos a Tokyo. É difícil saber onde termina uma cidade e onde começa a outra. Duvido que você saiba exatamente onde termina o Pina e começa Boa Viagem. É mais ou menos assim (há! há! há!). Não pára de ter gente, casas, fábricas, trilhos de trem e, é claro, japonês. E como são gentis. Um velhinho se ofereceu para tirar uma foto com a minha câmara para que eu pudesse sair na paisagem. Uma senhora vendo minha dificuldade para conversar com um motorista de ônibus, em Kyoto, foi lá e, simplesmente, pagou a passagem. Não há preocupação com os pertences. As pessoas deixam bicicletas na calçada sem nenhuma tranca. Não só bicicleta. Motocicletas também. O que será isso? Mais segurança pública, mais dinheiros no bolso das pessoas, mais emprego, ou simplesmente um traço cultural? Eles não cultuam a malandragem, como nós fazemos aí no Brasil. Pelo contrário, o bonito é aguardar sua vez na fila. Em compensação têm a certeza que afila vai andar, vai acabar, e que serão atendidos. Aí no Brasil a gente não sabe porque tem que entrar na fila, não sabe se vai ser atendido,e, às vezes, nem sabe o que tem no fim da fila, nem se estão passando na nossa frente para “se dar melhor”...
Em Hiroshima “a barra pesou”. O Museu Memorial da Paz é digno de um choro convulsivo. Não basta um soluço e voz embargada. É revoltante saber que a bomba atômica jogada pelos americanos se tratava de um experimento das forças armadas. Eles haviam “selecionado” quatro cidades para testar o novo brinquedo de guerra. Ficaram com duas: Hiroshima e Nagasaki. Kyoto, que havia sido uma das “selecionadas” foi poupada para ser usada como centro administrativo da ocupação americana. Houve toda uma preparação para estudar os efeitos do lançamento da bomba H. Tratou-se de um experimento científico, tão macabro quanto os experimentos nazistas nos campos de concentração. A bomba não tinha nada a ver com a guerra. O Japão já estava derrotado e dominado. E não se rendeu por causa dela. O que podia fazer contra um exército, os milhares de civis desarmados, que iam ao trabalho, às escolas e às compras? Nada, a não ser servir de cobaia. Isso foi o que mais me impressionou aqui no Japão. Foi esse fato ser do conhecimento geral, ser dito, ser mostrado, ser estudado, lá no museu, e eles não demonstrarem nenhum ressentimento contra os americanos. Será? Os alemães também tiverem suas cidades destruídas e populações civis massacradas pelos bombardeios americanos. Dresden foi aniquilada para servir de exemplo. Mas os alemães sabem. Eles não esquecem. E eu não sei se os japoneses esqueceram nem se eu vou esquecer o que vi.
Um forte abraço
Campello

