Revista Fácil, dezembro 2004
Dezembro 2004
Carta ao Amigo
José Campello Neto
Eu queria escrever muito mais a respeito de sensações, de impressões, de lugares, de aventuras e de boas experiências vividas do que a respeito de coisas que me incomodam ou que me deixam aborrecido. Mas desta vez eu não tenho como fugir. Vou falar dos vícios de linguagem. Acho até que um sujeito importante do mundo literário escreveu sobre isso há poucos dias na imprensa nacional. Nada me deixa hoje em dia tão chateado com alguém como ao escutar um desses usos repetitivos de expressões mal “colocadas” na frase, traduções literais do inglês que ficam sem sentido na nossa língua, e construções incoerentes com o tempo e com a ação verbal.
A primeira delas é “colocação”. – Vou fazer uma colocação. Por favor, o que isso quer dizer? Confesso que só penso em safadezas quando alguém me diz que vai fazer uma colocação ou que fulano “colocou” muito bem. “Colocação” está sendo empregada no sentido de “expressão”. Ao invés de expressou tal pensamento usa-se “colocou” tal pensamento. Quando querem dizer que alguém exprimiu um ponto de vista não dizem mais dessa maneira; aboliram o verbo dizer. Não se usa mais fulano disse, só se diz fulano colocou. Colocou o que, diabo, aonde?!
E o tal do “genundísmo”? Eita coisa chata! Eu vou estar fazendo isso e aquilo. O Sr. Vai estar apertando esse ou aquele botão. Tenho certeza que essa é uma tradução mal-feita do inglês. Eles lá dizem I WILL BE, que, ao que me parece, quer dizer eu irei fazer. Precisa de tudo isso? Por que não dizer eu farei? Tente pedir uma informação à telefonista. Peça a Judá para usar seu cartão de crédito. Qualquer um desses atendentes vai “estar dizendo” alguma frase em que você vira um moto-contínuo. Nenhuma ação é finita na boca deles.
Não vou chegar ao elitismo de preferir o aceder ao invés do acessar (to Access), mas não me conformo com a troca do iniciar pelo inicializar. Aí é demais. Se ainda simplificasse..., mas não, usa-se uma palavra ainda maior que a nossa para dizer a mesma coisa.
Você já percebeu que Fênix virou “Finixs” nas “transmissões” de formula 1 na Rede Globo de Televisão, aquela rede que se diz Gente Como você, curtindo com a sua cara, completo eu.
Pode ser que já tenha caído no nosso uso e dá até para entender a intenção, mas aquele aviso de Use Para Seu Conforto nos saquinhos para enjôo que é distribuído nos aviões chega a ser risível. Vomitar não é confortável. FOR YOUR CONFFORT deveria ser adaptado para um aviso que dissesse respeito ao nosso procedimento diante de uma situação de enjôo em público. Talvez nesse casso pudéssemos usar “para sua conveniência”, quem sabe. Mas conveniência agora se compra em lojas que ficam abertas 24 horas. Você já comprou alguma conveniência? Ela é vendida por quilo ou por litro? Você encontra conveniências em grosso ou em varejo?
Não dá para agüenta essas adoções. Ou é adotação? Sim porque simplesmente adota-se a expressão estrangeira sem nenhuma preocupação em traduzíla nem sequer adaptá-la.
Acho que tudo isso começou quando deram licença poética a uma música – bonita, por sinal – que dizia assim ( ou que colocava assim:?): .....te carreguei no colo menina, cantei pra “ti” dormir.....
Peço ajuda, não sei como agir diante disso. Só fico aborrecido, como disse no início.
Para ilustrar a CARTA AO AMIGO anterior faltou dizer de Brasília uma sentença que escutei de um architeto:
- O Rio de Janeiro é uma obra de Deus
- São Paulo é uma obra dos homens
- Brasília é uma obra de arte

