Revista Fácil, agosto/setembro 2006
Revista Fácil Nordeste - Agosto/Setembro 2006 – Ano XI – Edição 82
José Campello Neto
Diretamente de Brasília
Carta ao amigo
Fernando,
Eu não sei se o que faço nessas cartas que lhe escrevo, e que você publica, são chrônicas ou se têm outra classificação. Sei que é muita pretensão de minha parte dar a esses rabiscos qualquer conotação literária, principalmente depois que Odraúde, meu amigo que foi batizado de Eduardo Lucena, me deu para ler algumas chrônicas de Machado de Assis. Fica difícil comparar. Além disso tive a oportunidade de ler O JARDIM, do próprio Eduardo Lucena, um conto que será publicado numa coletânia organizada por Cyl Galindo. Nessa leitura percebi, pelo menos, que há diferença entre um conto e uma chrônica. Mas, Luiz Geraldo, a quem, infelizlimente, só vim conhecer pessoalmente na maturidade; mas que tornou-se, em pouco tempo, meu segundo melhor e maior amigo de infância, quer reunir nossas cartas e outros escriptos meus numa pequena publicação. Fiquei orgulhosíssimo com a proposta.
Insisto no orgulhosíssimo porque hoje em dia o “super” passou a ocupar o lugar dos superlativos. Se você quiser pode cortar o “síssimo” e dizer que estou “super”-orgulhoso. Já tenho até o título do livreto, será em alemão: Der narrioche schiff. Insensatos são todos os meus amigos, inclusive eu mesmo, por levar uma proposta dessas a sério. Imagine você que esses dias li o artigo de Lina Rosa, filha de Luiz Geraldo, no Diário de Pernambuco, e me senti humilhado. Aquilo sim, é que é saber escrever. O artigo é uma peça literária de extrema sensibilidade. Se puder leia e, se for possível, reproduza na FÁCIL. O artigo trata, justamente, de literatura. Foi o melhor comentário que li a respeito do aniversário do lançamento do “Grande Sertão: Veredas”. Lina Rosa botou pra quebrar! Mas essas notícias do dia a dia que lhe envio em minhas cartas; esses comentários a respeito de mim mesmo e do mundo, algumas críticas que esboço, tudo isso surpreende-me quando é publicado. Tanto surpreende minha reação ao ver meu texto impresso (Foca é uma mer.....!), de orgulho e de satisfação, quanto a dos amigos que o lêem, e mesmo a de pessoas a quem não conheço. E é sobre isso que vou falar agora.
Não faço a crítica de costumes. Em geral, quero dizer, no mais das vezes, pratico a observação da política, de alguma leitura, e, como mais assiduidade, do cotidiano. Da última vez que lhe escrevi, no entanto, comentei sobre a adoção de criança de pais vivos e conhecidos, sabidos. Mantenho a opinião externada naquela ocasião: - Esse gesto de apartação da criança é um ato de arrogância suprema. Pergunto se não dá para amar a criança e seus pais. Não seria possível compartilhar a criação da criança com seus próprios pais naturais, ou ajudar materialmente a esses, se for o caso? Não daria para dividir o amor e os cuidados como fazem os avós, os tios, os padrinhos, os amigos? Por que subtrair a criança só para si, afastando-a dos pais naturais, mesmo que não se negue à criança a existência destes? Volto a esse tema por causa, e por temor, das surpresas de que lhe falei linhas atrás. Surpreendo-me com a reação das pessoas.
Um desses sustos foi a reação de meu amigo Xereta, do Rio de Janeiro, àquela carta que você publicou na edição nº 81 da FÁCIL. Naquela carta eu contei do personagem chato que me abordou no elevador para falar dos perigos do programa nuclear iraniano. Pois bem, Xereta, que é registrado Alexandre Carlos, cismou que o personagem é ele. Disse que já havíamos conversado sobre aquele assunto. É claro que já havíamos conversado! Escrevemos sobre o que pensamos, sobre o que lemos, e sobre o que conversamos. Numa CARTA AO AMIGO consolido muita conversa, concluo muita reflexão e, sendo assim, posso, portanto, ter externado a ele as mesmas opiniões e os mesmos comentários que expedi depois ao chato do elevador. Mas o chato do elevador não era o Xereta. É bom que fique claro para ele. E já deveria ser claro, não fosse ele o xereta que é. Até porque sei que ele é dos que temem, com razão, muito mais, o programa nuclear americano do que o programa iraniano, lá, tão distante de nós.
Por tudo isso é que, mesmo antes de sair publicado meu comentário (ou será crítica de costumes?) sobre a adoção de crianças com pais vivos (não quis usar a expressão “pais sabidos” para evitar o sentido malicioso que “sabido” pode assumir entre nós), gostaria de esclarecer que em meu comentário não faço referência nem identifico ninguém. Peço a você, aos amigos e aos leitores que não vistam a carapuça. A FÁCIL não é a publicação do Padre Miguel do Sacramento Lopes Gama. Peço que tenham bom humor, fair-play e paciência para comigo quando lerem essas minhas elucubrações que Fernando divulga ao publicá-las. E se hoje falei de tantos amigos vou citar mais um(a). Minha amiga Elena Camarinha quando se identifica com alguma música que escuta, principalmente aqueles que cantam nossos sofrimentos mais íntimos, e que só faltam dizer nossos nomes, costuma me comentar irônica: “ Essa gente faz música sem saber quem vai escutá-las”.

