Fácil 2006
Meu Caro Fernando
Aprendi com Jacobina, personagem do conto O ESPELHO, de Machado de Assis, o quanto não vale a pena discutir. Jacobina nega-se a conjecturas e a opiniões, pois ambos dão lugar a dissentimentos, e dizia que os anjos representam a perfeição espiritual e eterna porque não discutem.
Apesar dessas lições me deixei cair em tentação quando um conhecido, do prédio onde trabalho, puxou conversa sobre o programa nuclear do Irã, que ele, pelo jeito, conhecia de perto, e em detalhes. Sabia até das intenções – malévolas - dos cientistas iranianos. Minha imprudência foi dizer que não conhecia intenções guerreiras naquele país, desde Xerxes no ano 500, antes de Cristo, quando eles ainda eram a Pérsia. Disse ainda que na história recente o Irã é que tinha sofrido duas invasões; Nos anos 80 do século passado, a partir do Iraque e, logo depois, um bombardeio às suas usinas de energia, a partir de Israel. Pronto, bastou isso para desencadear a revolta e a resposta, que veio em tom desafiador: - Mas Israel tinha que defender seu território! Lembrei a ele que os aviões israelenses haviam saído de Israel, sobrevoado o território da Arábia Saudita e feito o ataque no território iraniano, e não no território israelense. E, confesso, provoquei, ao perguntar a qual território israelense ele se referia: se ao que foi invadido pelos sionistas, depois da 2ª guerra mundial; se aos territórios invadidos pelo exército israelense na guerra dos 6 dias, ou, se se referia aos territórios onde foram confinadas as famílias palestinas expulsas de suas terras, Faixa de Gaza e Cisjordânia, respectivamente. Rapaz, o sujeito “subiu nas tamancas”! Começou a “misturar as estações”. A conversa foi virando um samba-do-crioulo-doido. Ele cismou que eu era anti-semita, racista, comunista, e por isso queria o extermínio dos judeus. Eu já estava me aborrecendo mas levei adiante a conversa declarando muita admiração pelo povo Judeu e até orgulho dos amigos e amigas judeus e de uma suposta origem judia pelos dois lados de ascedência, mas que isso não me obrigava a aceitar a invasão da Palestina, assim como não aceitaria a invasão do Brasil por quem quer que fosse. E além disso eu não tinha culpa de Israel querer transformar-se num grande gueto. A resolução da ONU jamais autorizou os judeus a invadirem a Palestina, nem a praticarem atos de terrorismo botando bombas em hotéis e em outros locais públicos, nem a se transformarem num Estado confessional e , muito menos, a confinarem palestinos árabes em campos de concentração, tal qual Hitler fizera com os ciganos. Isso sim, é racismo.
Falando nisso, era interessante, e eu quis lembrar ao meu interlocutor, que a ONU jamais tratou de criar um território para os ciganos, quase exterminados em fornos crematórios e em campos de concentração nazistas. Por que só os judeus mereceram esse “favor”? Tinha algo de obscuro nessa história, disse eu, a ele.
Procurei terminar aquela discussão dizendo que a 2ª guerra mundial trouxe dois grandes malefícios para as gerações que lhe sucederam: Pena dos judeus e medo aos americanos. Virei comunista-leninista, no ato. O rapaz só faltou espumar de raiva. Não sei porque desviou o assunto e transportou-se geograficamente para o Caribe. Perguntou se eu não queria mudar para Cuba. A princípio não entendi onde Cuba entrava nessa história. Mas na continuação do dissenso ele disse que a sociedade americana era muito melhor, muito mais rica, e muito mais feliz, do que o povo cubano. Melhor e mais feliz são conceitos subjetivos e eu não saberia dizer o que é melhor para nenhum desses povos nem qual deles é o mais feliz, embora, eu, pessoalmente, tenha a certeza que seria muito mais feliz morando em Nova Iorque do que em Guatánamo. Quanto a ser materialmente mais rica isso era inegável. Os Estados Unidos são opulentos, são a sociedade mais rica do planeta; não dá para comparar com nenhuma outra. Por que compará-las com Cuba, isso eu não entendi, disse a ele. Se for assim, deve-se comparar os Estados Unidos com Botswana, com o Haiti, ou quem sabe, com a Nigéria e com o Iraque. Só é possível fazer comparações com elementos do mesmo porte. Cuba deveria ser comparada com países do seu tamanho, ou próximos disso, como o Benin, na África, a Libéria, a Guiné, ou mesmo aqui na América, com a Guiana Inglesa, ou com a Guatemala. Com esses países livres e que não sofrem embargos econômicos de nenhuma espécie meu interlocutor não quis fazer comparações com Cuba. Na verdade ele não queria comparar nada. Não queria comparar índices, dados, nem coisa nenhuma. Ele queria era contrapor.
Sem nada concluir do que vínhamos falando ele disse que o socialismo era uma merda e que eu deveria aceitar a vitória do capitalismo. Quer dizer, sem nada me perguntar nem deixar que eu dissesse o que pensava de sua afirmativa ele me situou de um lado da questão e me posicionou em defesa de um dos sistemas a respeito dos quais, creio, travaria nova discussão consigo mesmo. Era o que eu percebia àquela altura. Ele agora trazia à baila um novo tema. Enquanto ele falava de capitalismo pensei nas minhas aplicações nos fundos de investimentos, nos meus imóveis alugados, sim, sou patrimonialista, e perguntei a ele sobre, afinal, o que iríamos conversar porque havíamos iniciado um papo sobre o Irã e estávamos chegando numa discussão político-filosófica. O clima esquentou quando eu perguntei se ele iría falar do socialismo da Suécia, e dos europeus em geral, cujo Estado do Bem Estar Social está na moda criticar e receber ataques dos chamados Neo-Liberais. O clima esquentou mesmo; o sujeito disse que eu o estava provocando. Mas não disse para o que eu o estava provocando. Seria para as vias de fato? Para mim ele estava “viajando na maionese”, como dizem os mais jovens, e eu já estava era impaciente. Pensei mesmo em aproveitar a deixa da provocação e dar-lhe um empurrão no hall de entrada do prédio. Foi quando ele gritou bem alto: - viva a China! ??????

