Revista Fácil, janeiro 2005

por José Campello Neto última modificação 02/07/2008 21:10

Sou do tempo...

Meu caro Fernando

Esse negócio de escrever para uma revista que é editada no Recife tem mexido com a minha cabeça. Especialmente com a memória. E o pior é que eu cheguei à idade de usar, com muita freqüência, a expressão, “sou do tempo....”. Pois é, sou do tempo em que tudo acontecia no centro do Recife, pois ainda não tinha Shopping-Centers na cidade. Sou do tempo em que para ir ao Recife Antigo nós dizíamos: “vou lá dentro do Recife”. Os quatro grandes cinemas eram o SÃO LUIZ, o TRIANON, o ART-PALÁCIO e o MODERNO. O BOA VISTA era quase um cinema de bairro, feito o POLITEAMA, onde eu negociava gibis, antes da “natural” e dos traillers. O COLISEU, em Casa Amarela, só ficou badalado quando inventaram o “Cinema de Arte”. E o VENEZA, na Rua do Hospício, só apareceu muito depois. Em Boa Viagem tinha o cinema da Marinha, na Estação Rádio Pina; em Piedade o Cinema da Aeronáutica e no Derby tinha o da Polícia Militar. Nesses três não havia censura por idade. Acho que a gente ia a esses cinemas só para ver os filmes prohibidos. O “agito” social era ir a um dos quatro cinemas do Centro. Enfrentavam-se filas enormes aos sábados e domingos. Era um tempo em que eu sabia em que cinema tinha visto qual filme. No SÃO LUIZ , tinha uma Sessão Bossa Jovem, nos sábados pela manhã, onde se fazia uma bagunça danada. Fui ver o Planeta dos Macacos e acabei sendo expulso pelo guarda da Rádio Patrulha que confundiu um amigo meu com um sujeito que gritava o tempo todo. A abertura das cortinas e os vitrôs iluminados do SÃO LUIZ faziam um espetáculo à parte. Os Aventureiros assisti no MODERNO. Love Story no VENEZA. Mas, Barbarela, não conto o que fiz no cinema, foi no COLISEU.

Grandes eventos também juntavam muita gente no Recife. A Parada de 7 de setembro na Avenida Conde da Boa Vista, a Festa do Carmo, e a Procissão dos Passos, pela Rua Nova. Os carnavais são casos especialíssimos. Sou do tempo do Corso lá no Centro. Mas de todos esses, o mais antigo em minha memória é a Festa da Mocidade, no Parque Treze de Maio. Na Festa da Mocidade a Roda era mesmo Gigante, o Trem Fantasma era apavorante e veloz, e no Martelo só quem ia eram os meninos grandes.

Não pretendo imitar Jessié Quirino em seu “Vou Embora Pro Passado”. Até porque não saberia para qual passado retornar. Qualquer que fosse minha escolha, por aquele beijo na adolescência, por aquele dia na infância, ou, quem sabe, pelo momento daquele sonho sonhado na praia, em frente ao Acaiaca, aos 15(?) anos, a escolha, eliminaria muitas outras passagens de minha vida; muitas sensações vividas e muitos sentimentos sentidos. Por isso, chega de evocações. Eu tenho mais é que conhecer o Recife de hoje, ir aos cinemas de Shoppings, ao Marco Zero, e arranjar uma amante Argentina.

Abraços

Zezo/Campello

P S – Se você quiser dar um título a esta Carta, sugiro o seguinte: “ Era um tempo em que eu sabia em que cinema tinha visto qual filme” porque eu nunca vi uma frase tão complicada

 

 * Artigo publicado na seção Carta ao Amigo, da Revista ....

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José Campello Neto
Brasília - DF
Jornalista e advogado