Arraes
Caro Fernando*
Na minha época de faculdade a gente esperava a volta de Arraes, do exílio, como os portugueses esperam, ainda hoje, a volta de D. Sebastião, o Encoberto, aquele que irá redimir Portugal. Acreditávamos piamente que Arraes viria libertar Pernambuco dos grilhões da ditadura, viria nos trazer a liberdade, a democracia, e o desenvolvimento econômico.
E Arraes chegou com a anistia, que era o fim da ditadura; chegou com o começo das coisas da liberdade...., chegou no início da democracia nova. O desenvolvimento econômico não veio com ele porque essa história de economia, produção, consumo, dinheiro, isso tudo depende também das políticas nacionais. Além disso, a melhoria das condições de vida de um povo não está exclusivamente ligada à economia ou à capacidade de consumo de bens. Fosse assim, índio não seria feliz.
Mas a ausência de Arraes foi longa. Para nós e para ele. Naquele período a turma da faculdade tinha crescido, tinha vivido uns tantos acontecimentos, dos quais ele não tinha participado, e a gente tinha chegado à vida adulta. Acho que não percebemos o efeito do tempo. Congelamos Dr. Arraes e os nossos sonhos numa bolha, e nos esquecemos que a realidade é tudo aquilo que acontece enquanto estamos fazendo planos e sonhando, já dizia John Lennon. Esperávamos e sonhávamos. Enquanto isso muita coisa foi mudando. Uma delas foi a violenta urbanização do Brasil. Outra foi a morte do “Che”, a derrota no Araguaia, Woodstoc, o movimento hippie, o fim do império português em África, a consolidação da Rede Globo, e a mudança dos ventos internacionais. Foi nessa leva que veio a queda do conservadorismo soviético e a vitória do conservadorismo americano. Essa danada dessa realidade, essa chata, chegou e se sobrepôs ao nosso mito, ao Dr. Arraes, àquela esperança que faria “erguer de novo, a alma penitente do seu povo”.
Ele voltou disposto àquela antiga luta pelo bem estar da sua gente. Juntou-se a Ariano Suassuna para derrotar os mouros em Alcácer Quibir. Alguns de nós partiram com ele. Fomos para o interior do Estado, participamos de seus programas de governo, só faltamos recuperar as alpercatas e os ternos de linho branco. Mas durante o período militar o sertanejo continuou migrando, as cidades incharam, o telefone chegara, e a televisão mentia, todo dia, na casa do povão. Só a miséria era a mesma. Não! Não era. A miséria estava maior. E tinha aumentado, justamente, porque começaram a faltar homens do porte de Arraes. Ao fim daquele período restavam os poucos de sua geração, e, mesmo assim, raras figuras com sua envergadura moral, com sua importância na história, e com sua dimensão. Talvez Brizola, Afonso Arinos, Ulisses Guimarães e Tancredo. Não haviam novas lideranças.
Lutávamos a boa luta quando nos demos conta de que mudanças já haviam ocorrido e redirecionaram os movimentos sociais. Dr. Arraes continuava sendo um homem atual, na sua grandeza, na sua perseverança, no seu compromisso com o povo, na sua honradez. Estes são atributos atemporais. Mas não eram mais suficientes para enfrentar a nova composição das forças contra as quais ele lutava. Para agravar as injustiças sociais haviam surgido novos mecanismos, especialmente os financeiros internacionais. Todas as economias do mundo estavam se conectando entre si. Ele denunciou que nada disso modificava a situação do povo do seu Estado. Mas nem ele nem alguns de nós tinha percebido o começo da era eletrônica. Nos perdemos quando a riqueza mudou de mão e quando o valor supremo do consumo se afirmou. O dono da terra era outro. Não era mais o Coronel, caricato Agora, o “agrobusiness” é quem dava as cartas pelo interior e uma empresa na Itália controlava, de Manhatan, a produção de leite no Sertão.
O tempo de Dr. Arraes, o Mito, acabou para nós. O tempo de Dr. Arraes, o Exemplo, continua.
* Artigo publicado na seção Carta ao Amigo, da Revista ....

